O mês de setembro convida toda a sociedade a pausar a rotina e direcionar um olhar mais acolhedor para a saúde emocional, dando início a uma jornada essencial de conscientização e valorização da vida. Não apenas como uma cor estampada em símbolos institucionais, esse movimento anual propõe o fim do silêncio que historicamente circunda os sofrimentos da mente, transformando o diálogo em uma ponte segura para quem se sente solitário em suas dores.
Dentro do Centro Universitário UNI-CET, essa mobilização ganha uma dimensão ainda mais profunda, pois a instituição compreende que a vivência universitária transcende a sala de aula e a busca por conhecimento. É justamente nessa fase de transição, marcada por intensas expectativas, incertezas profissionais e grandes responsabilidades, que muitos jovens enfrentam o peso invisível da exaustão emocional, tornando o campus um espaço fundamental não apenas para formar profissionais, mas para cuidar integralmente de seres humanos.
Discutir a prevenção ao suicídio com abertura e sensibilidade no ensino superior significa desmistificar tabus antigos e construir uma rede coletiva de apoio em que cada estudante, professor e colaborador sinta que sua vulnerabilidade é respeitada e ouvida. Portanto, cultivar um ambiente acadêmico verdadeiramente altruísta é garantir que nenhuma jornada intelectual aconteça à custa do bem-estar, e demonstra que a comunidade acadêmica caminha unida para que ninguém precise enfrentar suas tempestades sozinho.
É importante lembrar que se vive, atualmente, em tempos de constantes reconfigurações nas esferas humana, familiar, profissional, ambiental, dentre outras. Além disso, convém ressaltar que, devido aos avanços tecnológicos, as interações sociais acabam ocorrendo majoritariamente no campo digital, o que afasta o convívio presencial e acentua o isolamento dos indivíduos em suas próprias bolhas.
Nesse sentido, a psicóloga educacional e gerente do Núcleo de Apoio Psicopedagógico e Saúde Mental (NUAPS) do UNI-CET, Profa. Ma. Kátia Cilene, fala um pouco sobre a importância de debater a Campanha Setembro Amarelo no ambiente universitário e reforça por que discutir saúde mental é sempre tão necessário.
Para contextualizar o aumento da procura por suporte emocional nos dias de hoje, a especialista aponta que o ambiente universitário também reflete as pressões do cotidiano moderno e destaca que:
“Nunca se falou tanto em saúde mental como atualmente. Isso acontece em virtude da identificação das demandas no contexto social, envolvendo o sofrimento psíquico, um número maior de diagnósticos, sobretudo voltados para casos de depressão e de ansiedade, e o contexto acadêmico também reflete a sociedade.”
Reforçando a urgência de naturalizar o acompanhamento psicológico, assim como se faz com consultas médicas tradicionais, a psicóloga defende seu ponto de vista, afirmando que:
“Não tem como a gente fechar os olhos para uma demanda que está tão presente no contexto social e no contexto acadêmico. Então, a nível geral, tem-se observado um número maior de discentes precisando de acompanhamento psicológico, um número maior de laudos recebidos, de estudantes com algum tipo de transtorno mental, especialmente o transtorno de ansiedade e a depressão, que são os transtornos que estão mais relacionados, por exemplo, aos casos de suicídio, sobretudo a depressão.”
Para orientar a comunidade a perceber quando um colega ou aluno precisa de suporte especializado, a gerente do NUAPS esclarece que os sintomas vão muito além da tristeza aparente, já que muitas vezes as pessoas demonstram uma falsa felicidade com o intuito de ocultar um real sentimento de tristeza, desamparo ou desesperança. Sendo assim, ela reitera que é preciso avaliar também a mudança de comportamento.
Ao apontar os indicadores práticos observados na rotina escolar, como o índice elevado de ausências nas aulas, a queda no rendimento quantitativo das avaliações e dos trabalhos pontuados, além do baixo engajamento nas atividades, ela reforça que esses casos trazem um alerta maior.
“Tem-se os sinais mais característicos da depressão, como o isolamento, a tristeza, o choro recorrente, o ganho ou perda de peso, a insônia ou dormir demais, por exemplo. Mas, especialmente no contexto acadêmico, observa-se que os alunos com um índice maior de faltas são geralmente os que podem estar em situação de risco. Então, se o comportamento mudou, isso já sinaliza a necessidade de uma maior investigação para saber do que se trata e, se houver a necessidade de intervenção de especialista, a gente orienta para que haja essa busca.”
De acordo com a profissional, é fundamental destacar o papel do corpo docente na identificação precoce de quadros de isolamento dentro da rotina de aulas. Como parceiros, são eles que estão no cotidiano com os alunos e, muitas vezes, são eles quem primeiro percebem a mudança de comportamento, que o estudante está faltando ou que aquele aluno está mais recluso e isolado.
A fim de incentivar a união e a observação mútua entre os próprios estudantes para combater o individualismo cotidiano, Kátia ressalta que:
“Nós trabalhamos durante todo o ano essa questão de divulgar junto aos docentes a importância dessa parceria, deles terem esse olhar sensível, de se aproximar do aluno para conhecer, para saber e, na identificação da mudança de comportamento, encaminhar para o NUAPS. Porque assim conseguimos fazer uma abordagem mais específica e, numa necessidade, a gente orienta a família, o estudante, faz os encaminhamentos necessários, e os próprios pares também são nossos parceiros.”
Alguns fatores são indispensáveis para gerar proximidade e confiança no ambiente acadêmico, como uma boa convivência e um bom relacionamento. Nos casos em que um colega percebe alguma diferença ou alteração de conduta no outro, é de extrema importância que ele sinalize, fale sobre essa mudança e tome a iniciativa.
Segundo a psicóloga, já houve atendimentos de alunos realizados em virtude da identificação de um colega. Portanto, é preciso estar atento, para que o contato com o outro proporcione esse vínculo, em que seja possível perceber sua mudança. Ela ainda declara que a dificuldade de ter essa percepção do próximo é algo a ser superado.
“Parece que as pessoas estão tão ensimesmadas que o seu olhar às vezes é só para você. Então, é preciso deixarmos esse egoísmo, olhar para os lados, falar com o outro, cumprimentar, observar.”
Ao lembrar que o espaço acadêmico não substitui o diagnóstico clínico, mas atua como um canal vital de triagem e orientação, a especialista pontua que:
“Não cabe ao ambiente institucional acadêmico diagnosticar uma depressão, mas a gente, dentro dessa coletividade de técnicos, docentes e estudantes, como rede de apoio, deve identificar a mudança de comportamento.”
Dessa forma, há serviços públicos institucionais que permanecem à disposição de quem precisa de suporte psicológico imediato e gratuito, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e o Centro de Valorização à Vida (CVV), ligando para o número 188, além de algumas ONGs. Em Teresina, existe o Provida, vinculado à Secretaria Municipal de Saúde (SMS), assim como os atendimentos psicológicos das clínicas-escolas da rede do SUS.
No centro universitário, existe o projeto Cuidar + UNI-CET, resultado da colaboração entre o curso de Biomedicina e o NUAPS, voltado a colaboradores, professores e estudantes. A ação disponibiliza atendimentos como a ventosaterapia e a auriculoterapia, práticas que auxiliam no relaxamento, no alívio de dores, no equilíbrio do corpo e na promoção do bem-estar, estimulando o autocuidado dentro da rotina acadêmica.
Debater o assunto sem preconceitos é a principal ferramenta de prevenção e conscientização coletiva, pois a função social do “Setembro Amarelo” é promover a valorização da vida. Esse cuidado se dá também ao falar sobre o suicídio, afinal, é impossível conduzir uma campanha de alcance mundial sem abordar o tema diretamente. O principal método para tratar da temática é justamente dialogar mais sobre ela, não com a intenção de induzir o outro a essa iniciativa, mas com o objetivo de contribuir para a conscientização sobre os cuidados com a saúde mental.
Concluindo com uma mensagem de acolhimento e esperança para que todos possam superar momentos de dor profunda, a psicóloga deixa claro que:
“Todos nós estamos suscetíveis a passar por um sofrimento emocional, por um adoecimento psíquico, mas, para além disso, é fundamental saber que há profissionais competentes que cuidam, e que a gente deve buscar ajuda, sem ter vergonha. E, por mais que a dor seja grande e desesperadora, sempre existe uma saída, e devemos sempre escolher pela vida.”
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